Laços Virtuais
Abril 9, 2010
E eis que ela surge de braço dado à curiosidade da frase enigmática, na mão direita o acorde da pergunta a tactear descobertas, na esquerda a debilidade do pulso emprestado à condição e incerto. marta sem letra capital pela lei do nevoeiro do conhecimento. marta, uma longa pergunta maiúscula que me entra no livro da letra alheia, sem face real e com algumas aparentes.
No seio da procura, a vivacidade do desafio que galviniza o espírito e exercita a capacidade dialética. Digo: não sei quem és, como és ao sê-lo e agarro a leveza bem querida de ignorá-lo com dois dedos que tacteiam a descoberta. Dominamos o limite da dávida, fluimos pela satisfação de nada dever, de nada ter de retribuir.
Trocamos memórias avulsas, recordações de tempos passados quando a noção da infância tinha dentes de leite, e partilhamos o ouro outrora iluminado pela frescura original inolvidável e essencial na formação da vida adulta. Ao ritmo do entusiasmo, somos desafiados por uma noção alheia que pede retribuição, e usamos o gancho da lembrança que pesca ternuras nos confins da nossa verde consciência, confrontados que somos com a meninice, a qual, sem termos noção, nos prepararia para uma abstracção chamada futuro.
Julgo ser esclarecedor preencher as lacunas da abstração com termos como rede social, contacto online, ou mesmo amizade virtual – sendo certo que este último laço de afecto é difícil de quantificar, assim como o é o momento de transição entre o estranho, o conhecido, o amigável e, porventura, o amoroso.
marta e eu somos um encontro como muitos outros, uma proximidade cuja natureza e intensidade depende de mostrarmos quem somos, tornando-nos facilmente próximos ou, quando a divergência o impõe, rapidamente afastados sem que haja uma inscrição na memória de longo prazo.
O que destingue uma Marta de uma Sofia ou de uma Joana depende da convergência de um plano de expectativas comum, uma atracção que, nessa mesma medida, tanto pode ser física como espiritual ou mista, e cuja união dos vértices de convergência delimitam um mapa de apreciações, fruto da natureza humana que tanto deve à arte da vida como a favorece.
De acordo com a moldura de sensações que Marta, já com algum peso maiúsculo, despertou em mim, é possível dar relevo a interesses pontuais, uma temática bem querida e comum a ambos.
Marta e eu descobrimos um interesse comum na troca de recordações que remetem à nossa meninice; as memórias que circundam os primeiros jogos, as primeiras amizades, e uma noção de divertimento lúdico diferente daquela hoje instituída.
A procura de interesses em comum que aproximem duas pessoas é uma necessidade humana básica, naturalmente. Contudo, e aproximando-me do cerne da questão, a especificidade das redes sociais modernas promove uma facilidade de encontro entre pessoas que, com maiores ou menores pontos de convergência encontram no outro alguém que preencha uma lacuna da longa lista de necessidades sociais que são elementares ao ser humano.
O Facebook, como a mais abrangente e eficiente, permite, através de inúmeros grupos temáticos e acesso a listas de amigos próximos aos do utilizador, celebrar e promover a mais básica e essencial necessidade gregária do ser humano. Como complemento da noção tradicional de comunhão social derivada da vida social de cada um, as redes em causa permitem desbravar novos horizontes, descobrir novos interesses comuns ao usuário ou mesmo expandir uma rede de conhecimentos que só poderão enriquecer a experiência que é a interacção com o outro, a qual pode influenciar ou mesmo ser preponderante no percurso futuro de cada um de nós.
Miguel da Fonseca
25/03/10