A criança e o brinquedo

Agosto 9, 2009

Li recentemente um curto ensaio  de Walter Benjamin inserido na publicação “Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política”(Relógio D’Água), sobre uma obra documental dedicada à genealogia do brinquedo que achei deveras interessante pela abordagem ao tema. Gostaria de realçar alguns dos aspectos que achei interessantes.

Um aspecto que releva da obra é que, segundo Benjamin, o brinquedo é visto como um confronto, não necessariamente pelo da criança com o mundo do adulto, mas do confronto do adulto com o mundo da criança, em certa medida o da última, pela forma como certos objectos de culto (a bola, o pião, o elástico, o berlinde) transportam um peso histórico, legado pelo primeiro ao universo do futuro adulto. O texto pretende criticar a forma paternalista como o universo que assiste à criança é subestimado na sua  riqueza e património humano que lhe assistem. Pretende, em grau maior, tratar da importância que um objecto relegado para segundo plano, como sendo do foro infantil, é de maior importância na configuração do universo do adulto. O tema que subjaz o artigo é o de que somos, em qualquer idade, um produto da cultura humana e da evolução da técnica que assiste ao contexto particular em que somos inseridos.

Um ponto fundamental da leitura é a de atribuir à criança papel autónomo na determinação do significante, o brinquedo. Para este fim, é realçada a medida em que a cultura histórica favorece o universo da criança e como este pode configurar o universos do adulto. A certo ponto é referido que “Até ao século passado, o bebé não era considerado como um ser dotado de espírito e, por outro lado, o adulto pretendia formar as crianças de acordo com o seu ideal de pedagogo”. Esta noção, ainda em voga, e natural em certa medida, subtrai da noção que a criança é capaz – e fá-lo naturalmente -, de se adaptar a uma esfera de valores do mundo circundante que serve de farol a toda uma leitura da cultura contemporânea que configura o seu mundo. O ensaio foi escrito em 1928, mas adquire hoje em dia uma consonância particular com a realidade do mundo infantil, assim como com a concórdia que, hoje em particular,  assume no manancial de opções posto à disposição da criança. O texto, que pretende em certa medida relevar a importância do materialismo histórico na configuração do homem actual, defende que “o mundo perceptível da criança é impregnado, por toda a parte, por vestígios da geração mais velha com os quais se confronta, o mesmo acontecendo nos seus jogos”.

Uma distinção de relevância no texto, esta mais afeita à ideologia de Benjamin, é a de atribuir papel relevante ao processo de fabrico em detrimento da forma; em particular a técnica ao invés dos aspectos formais do brinquedo, um ponto que não pretendo desenvolver.

De maior interesse parece-me ser a referência à obra de Karl Groos “Spiele der Menschen” (Jogos Humanos), que aborda a “Morfologia dos gestos do jogo”, a qual é descriminada do seguinte modo: “1. O gato e o rato (em todos os jogos de apanhar); 2. A mãe-animal que partilha o seu ninho com os filhos (por exemplo, o guarda-redes, o jogador de ténis); 3. a luta entre dois animais pela presa, o osso ou o objecto amado (pela bola de futebol, pela presa, etc.)”.  Esta leitura dos pressupostos psicológicos que atendem ao futuro adulto, amiúde visto como determinismo humano, é interessante  no modo como configura os preceitos que atendem à lógica de desenvolvimento da criança. Mas a esta enumeração de lógicas de desenvolvimento que assistem ao universo infantil, Benjamin adiciona um aspecto que julgo ser o mais interessante do ensaio, a noção de repetição, a noção do “outra vez”, como fonte de prazer e de cimentação da experiência. De facto, a criança quer repetir ad infinitum toda a experiência do jogo, há uma pulsão que a satisfaz pela repetição, e supõe-se aqui um mimetismo de quem encara um desafio, sabendo que a sua capacidade de o vencer favorece o prazer do domínio de uma actividade particular, levando a uma especialidade técnica por mais frágil ou inconsequente que seja a sua vitória. O autor estabelece, aliás, um paralelo interessante com a sua extrapolação à esfera adulta, dizendo que: “O escuro impulso para a repetição é no jogo quase tão forte, quase tão ardiloso na sua actuação, como o é no instinto sexual”, se bem que esta possa ser enquadrada de variadas formas em momentos futuros.

Há no texto momentos deliciosos como o do levantar da marca do realismo ideológico na sua extensão à didáctica educativa, quando refere que “… na cabeça de bonecas ‘realistas’, máscaras arreganhavam os dentes, enroscavam-se no preto dos canhões,  e sorriam à socapa nos engenhosos ‘carros das catástrofes’, que se decomporiam nas partes previstas, quando se desse um acidente de comboio”. Mas este é apenas um fait divers de um texto que, pretendendo abordar em curta medida uma leitura particular pró-marxista, não deixa de conter uma leitura universal extemporânea que serve com relativo interesse a configuração do universo pueril da criança e a sua relação com um dos conceitos mais incontornáveis do seu desenvolvimento: o brinquedo.

O folclore Obama

Agosto 3, 2009

Por mais aspectos afeitos à leitura do actual governo democrata americano, há um em particular que assistiu à eleição de Barack Obama que me parece interessante considerar. Este respeita a uma retórica tendencialmente ascendente em Clinton e Bush que, com o actual presidente assume uma concretização mais efectiva. Refiro-me à mimética da oratória em torno de hábitos quotidianos e valores populares que permitam uma particular identificação do legislador com o executor da lei, aspecto que se tornou hoje essencial, e tanto contribui para que se ganhem eleições como para fazer cair pretendentes às mesmas menos bem munidos de estratégicas semelhantes.

Pretendo tratar brevemente a questão do estilo e do modo de proximidade do candidato ao eleitorado como essenciais para a obtenção da vitória, relegando a concretização proposta pelos programas eleitorais para segundo plano. É um aspecto especialmente pertinente considerando que do sucesso do aparelho propagandístico pode depender toda uma economia global, a qual se encontra dependente da conjuntura política particular dos EUA.

É certo que em qualquer cargo de poder que dependa do voto, a unanimidade popular é essencial e é natural que assim seja em democracia; o que releva em relação ao passado, é a forma de obtenção dessa unanimidade popular, que troca a ideologia ou competência que assiste ao candidato, admito que difícil de quantificar, por uma estratégia de propaganda particular que é a de demonstrar como o discurso simples, se não simplista, e hábitos particulares do candidato encontram identificação no cidadão comum, furando o establishment para com o qual a desconfiança é indiscutivelmente crescente.

Se Clinton saca do seu saxofone para mostrar a sua identidade como comum apreciador e praticante de actividades com que o cidadão americano comum se pode identificar, e Bush foi um rebelde que admitiu a falibilidade humana do seu passado, chocando os preceitos de um partido conservador, Obama vai ao McDonalds comer um Big Mac, beber uma cerveja com os amigos ou assistir ao último jogo de basquetebol; Obama apresenta o cão que irá fazer companhia à filha na Casa Branca e vai jantar com a primeira dama num restaurante público se bem que exclusivo, com parcial cobertura mediática. Obama é, sobretudo, um homem do povo, e a sua cor, dado o historial de segregação racial nos EUA favorece-o nessa medida. Obama é o mais imediato agregador de sentimentos anti-Bush – que com o tempo se irão desvanecer mas que se encontraram particularmente acesos durante a sua eleição -, é um homem carismático, um homem de valores num partido tão liberal em termos de política social quanto a América hoje permite. Obama é também um directo agregador de votos com base na moralização da politica que aponta para a corrupção ao mais alto nível, inércias executivas e subordinação à oligarquia dos interesses económicos, e demais perversões do sistema democrático. É alguém que, dado o descrédito nas instituições democráticas e crise de valores que assistem ao cepticismo perante a hierarquia máxima, lucra com a convicção abstracta (credulidade?) num D. Sebastião à americana, cuja mensagem e admito que integridade pessoal, vai de encontro ao mais inteligente e bem construído populismo. Nada que invalide o patriotismo, dedicação à causa pública e sentido de dever do governante, um pressuposto que deve vigorar em qualquer caso até prova em contrário.

Mas a questão essencial remete às lógicas que assistem à ascensão politica e os seus contornos particulares. O divórcio que em tempos modernos o cidadão comum, indiferentemente da localização geográfica, sente perante a esfera política, e a crise de valores neste âmbito exige que seja praticada uma política baseada na lógica do estrelato – a realidade é difícil de engolir -, e competência no modo de gerar uma identificação particular com as massas.

Se uma sociedade novecentista arrastada pela relevância das matérias de preponderância ideológica do século anterior o contornaram e remeteram para plano secundário, a questão do estilo, já presentes em tempos de paz relativa no mundo civilizado e relativamente próspero, assim como nos aparelhos propagandísticos do pós-guerra impulsionados pelo poder dos media, tornou-se de tal modo relevante que uma eleição pode ser ganha ou perdida nessa base.

A questão é interessante e merece um desenvolvimento aturado, mas o que releva é a tendência populista, tão criticada em países terceiro-mundistas, e que vê um paralelo ascendente com inúmeros exemplos nos países mais civilizados, em particular no Estado democrático mais influente da esfera global. É de relevo a preponderância da comunicação social na medida em que contribui para a mudança de paradigma da relação candidato-eleitor, mas esse aspecto apenas reforça a tendência tratada nesta instância.

A cor do sangue

Julho 30, 2009

A propósito do pedido de demissão de Gabriel Olim, presidente do Instituto Português do Sangue no seguimento das declarações que, mais linha menos linha, defendiam a exclusão de grupos de risco na doação de sangue, encontramo-nos perante um tema que merece ser discutido com mais seriedade e isenção do que tem sido o seu tratamento na praça pública.

Ora, este soundbyte isolado e politicamente incorrecto levou imediatamente ao pedido de demissão do seu protagonista e segue a linha tendencial de gratuitidade a que inúmeros casos de natureza similar já nos habituaram.

Em meu entender, é no mínimo infeliz que se façam leituras frívolas de assuntos tão sérios como este, e se “peça a cabeça” de alguém, sem se atentar na suposta racionalidade ou motivos que possam estar na base das declarações proferidas ou rumo traçado na execução de um cargo de tamanha responsabilidade.

A leitura imediata é a de uma homofobia descarada e indisfarçada, e uma descriminação de grupos com uma orientação sexual particular, ao invés de comportamentos que são de risco indiferentemente da orientação que assista à prática sexual. Está, sobretudo, na base da polémica, o uso do termo “grupo” em vez do termo “comportamento”.

Porém, para além de um desmentido numa entrevista à edição de hoje do jornal i da forma infeliz como se tomou grupo por comportamento, Gabriel Olim defende que, a média de exclusão de dadores encontra-se entre os 27% e os 30%, ocasionalmente excedendo os 50%, podendo mesmo uma genérica relação sexual não protegida nos últimos seis meses, independentemente da orientação sexual, ser suficiente para a recusa da doação. Defende igualmente que, em toda a Europa, mesmo em países tão liberais como a Holanda ou a Suécia, e apenas com a excepção da Itália, o grupo de risco (não necessariamente o comportamento) leva à exclusão de dadores, sendo que os heterossexuais aceitam a recusa, enquanto que os homossexuais vêm isso como descriminação.

A interpretação das leituras que assistem a esta última evidência em particular é-me especialmente cara pelas extrapolações que podem ser feitas, julgo que com legitimidade, da falta de isenção que o preconceito promove.

A frequente descriminação quotidiana em desfavor daqueles cuja orientação sexual dificulta a inserção social – com base na mentalidade ainda dominante -, servem de mote a leituras carentes de isenção. Mormente, a estigmatização dos protagonistas com base no comportamento particular que lhe assiste levam a que sejam feitas generalizações depreciativas, concedo que por vezes fundadas, no que toca a eventuais formas de descriminação que constituam um entrave à inserção generalizada no seio da sociedade.

Desse modo, qualquer tendência de selecção, por isenta de preconceito que se encontre, é automaticamente vista como alvo de um pendor discriminatório. Trata-se de uma obsessão agravada pela experiência quotidiana, e que encontra paralelo em casos de outra natureza, como a xenofobia racial – uma das componentes promotoras do crime pela falta de inserção, e potenciadora, por acréscimo, de uma descriminação, desse modo, mais exacerbada. Releva que as injustiças sofridas pela vítima de discriminação dêem azo a reivindicações de igualdade indiferenciadas, as quais podem levar à invalidação de certas distinções, plenamente justificadas pela técnica, que são assim negligenciadas. Como defende Olim a título exemplar: “a sífilis aumentou na Austrália e no Reino Unido, sobretudo à custa das relações homem com homem”.

No caso particular, a selectividade de doadores de sangue que é transversal aos comportamentos de todos os grupos de risco, indiferentemente das orientações sexuais, baseia-se em estudos que são efectuados com uma isenção que ultrapassa o politicamente correcto para assentar na prerrogativa que tem como valor essencial a segurança do cidadão. Se os resultados, cuja unanimidade é quase plena, definitivamente elevada, postulam uma especial atenção a grupos de risco particulares, não é ética e moralmente defensível a posição de certos grupos de activistas que, em prol de uma irracionalidade baseada na vitimização, coloca em risco a saúde do cidadão para que uma noção universal de igualdade, onde esta não é defendida no caso particular, possa ser estabelecida.

Encontramo-nos perante um caso de ressentimento, danoso para o bem geral, que se insurge contra uma diferenciação justificada, e que leva a ser posta em causa a idoneidade de um órgão de relevo do serviço público, por ser confortável o simplismo irresponsável de quem prime o gatilho para apelidar alguém de homofóbico sem justificação, dando assim azo a reivindicações de justiça discriminatória, mesmo que uma atentada revisão dos factos lhe seja avessa.

A propósito da facilidade que leva a uma tomada de posição que serve de catalisador a ressentimento promovidos por esferas de outra ordem, logo injustamente direccionados, impõe-se estabelecer um paralelo com a noção que assiste às teorias da conspiração, em que grosso modo, a hierarquia superior tem sempre um motivo imoral ulterior que serve de engodo à justeza do reprimido. Recordo a este propósito, que é fácil em tudo crer e em nada acreditar, sendo difícil e incómoda a atitude isenta e distinta, munida do discernimento que assiste a diferentes casos, céptica mas proactiva, na consideração e apuramento dos factos, e que não cede a leituras de imediatismo ou conveniência activista. Combater a descriminação é saudável quando esta põe em causa o respeito pelas orientações de cada um; reconhecer a necessidade de uma determinada generalização que, à falta de um vasto conhecimento particular do indivíduo dador, leve à aplicação de rótulos e medidas distintas com base em hábitos pode justificar uma precaução particular, sem que esta tenha de ser vista como discriminação de grupo ou comportamento específicos.

Eu próprio recebi, através do Facebook, um convite para me unir à causa que defendia o pedido de demissão do presidente do Instituto Português do Sangue. Resta-me dizer a esse respeito, e sem querer aqui desenvolver o tema, que me preocupa a facilidade com que, numa ínfima fracção de tempo, um largo número de pessoas aceita associar-se a uma causa que se baseia num soundbyte, e sobre a qual não possui conhecimento de fundo. Esta ignorância pode, em potência, assumir extrapolações de um valor mediático sensacionalista se não for o meio em causa devidamente contextualizado, e assume um particular paralelismo com a facilidade com que uma certa faixa extremista, munida de um cinismo exacerbado perante as instituições e os seus representantes, só vê males onde o mais atentado bom senso luta por subsistir.